A VERGONHA DO EVANGELHO E DO MARKETING


por Rogério Brandão Ferreira

O que haveria de semelhante entre as boas novas e as leis de mercado? Seria a cruz o mais bem sucedido logotipo deste presente século? O anúncio das boas novas são tão melhores que as técnicas de propaganda, assim como a ação curadora e sobrenatural de Deus é bem superior às técnicas de medicina conhecidas. Todavia aquela não anula estas.

O marketing tem como princípio satisfazer as necessidades e desejos dos fregueses através de empreendimentos econômicos. Como todo mundo já está cançado de saber, não é necessário falar de como é ultrajante para a sociedade o que muitas empresas fazem para conquistarem novos mercados e obterem mais lucros, manipulando as massas e pregando mentiras.

Na igreja deve ser diferente. Embora a necessidade de salvação das pessoas seja cada vez mais gritante no mundo em que vivemos, o “desejo” de ser salvo é algo questionável. Alguém já disse que todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer! E como não existe salvação sem cruz, não precisamos nos iludir achando que seremos recebidos de braços abertos. Daí a diferença do evangelho para a Coca-Cola ou Nike, como Gondim já uma vez destacou. Assim como Jesus foi envergonhado nós seremos também. “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura” (Hb 13.13-14). Mudar a mensagem é heresia. 

Apesar de tantas parábolas que Jesus contou envolvendo dinheiro, o reino de Deus nunca pode ser encarado como um empreendimento com fins lucrativos. Para contrabalançar existem tantas outras parábolas onde outros elementos, como relacionamentos e graça estão em destaque. Dar a ênfase correta ao viver cristão exige muito investimento, muito risco e pouco retorno. Por isso não se assuste se seguir a Jesus lhe trouxer prejuízos! Aliás essa é a regra geral, basta examinar as evidências Bíblicas, a vida dos santos e a realidade da maioria dos cristãos ao nosso redor (naturalmente que há dignas exceções).

Não é de se estranhar que para os judeus a cruz de Cristo era um escândalo, uma vergonha. Mas Paulo não se envergonhava do evangelho e pregava tanto para gentios como para judeus. Pedro pregava para judeus e também para gentios, e olhe que para os gregos a cruz de Cristo era loucura (não havia nehuma lógica convincente em sua pregação). Jesus, que veio para as ovelhas perdidas da casa de Israel, alcançou com sua graça também os gentios, como a mulher sirofenícia e o centurião. Então é ridícula a tentativa de segmentação de mercado no meio cristão, assim como é lamentável querer justificar as divisões no meio eclesiástico devido às várias diferenças humanas como as econômicas, as culturais ou de estilo. Como Philip Yancey muito bem escreveu*: “como esquecemos tão facilmente, que a igreja cristã foi a primeira instituição na história que ajuntou judeus e não judeus, homens e mulheres, escravos e livres sobre a mesma base”. Ele também alerta para o engano que é procurarmos uma igreja onde tudo é de acordo com nosso figurino, nossas idéias, nosso nível educacional, nossos “background” bíblico, e nosso gosto no que diz respeito à liturgia e louvor. Por que não encararmos o desafio da multiplicidade? Porque não usufruirmos dos benefícios da complementariedade? Admiro muito as igrejas que conseguem sem muitos recursos mas com muita graça, esforço e amor integrarem plenamente indivíduos com suas individualidades e acolhê-los como irmãos a despeito de suas diferenças.

Para sermos sinceros as divisões têm uma base bem bíblica: “Busca satisfazer seu próprio desejo aquele que se isola; ele se insurge contra toda sabedoria” (Pv 18.1). Nos bastidores das separações existem sempre desejos particulares, normalmente de poder e de reconhecimento. Contrária a esta é a atitude de Jesus e dos apóstolos que optaram permanecer nas sinagogas, pelo menos até o ponto de serem oficialmente e até brutalmente expulsos ou mortos! Assim fica bem claro e dá pra todo mundo ver quem é que está se isolando de quem.

Enfim, é mais esperto quem fica com a vergonha do evangelho, ao invés de abusar vergonhosamente das técnicas do marketing. O exemplo de Moisés deve ser sempre lembrado, pois ele teve “por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa” (Hb 11.26).

*Yancey, D. Philip, Church: why Bother?, 1998, Michigan (Em busca da igreja perfeita) – tradução livre

Por: Rogério Brandão Ferreira
Munique/ Alemanha – MG
Fonte: www.ultimato.com.br

 

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