O panteão dos “sem Deus”


Artigo Publicado na revista Ultimato

Agnóstico

O agnóstico é aquele que se diz desprovido de meios para conhecer Deus e outras realidades metafísicas (não-palpáveis ou invisíveis). O termo foi criado pelo zoólogo inglês Thomas H. Huxley (1825-1895), mas a base filosófica do agnosticismo foi lançada cem anos antes pelo filósofo escocês David Hume (1711-1776) e pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). O homem não pode chegar a Deus pela razão, mas por meio de uma decisão pessoal ou de uma experiência religiosa. O agnosticismo limitado diz respeito ao conhecimento finito do Deus infinito e não é incompatível com o cristianismo. Já o agnosticismo ilimitado, ou total, descarta completamente a possibilidade de qualquer conhecimento de Deus e é autodestrutivo. O primeiro não impede a descoberta de Deus, porque o declara apenas desconhecido. O segundo barra qualquer busca, porque declara que Deus é incognoscível (que não pode ser conhecido).


Ateísta

O ateísta é aquele que nega a existência de Deus. O ateísta prático nega apenas na prática a existência de Deus, enquanto o ateísta dogmático nega na prática e na teoria a existência de Deus. O ateísmo absoluto é raro e tem muito menos adeptos do que o ateísmo demonstrado pela indiferença quanto à pessoa de Deus. A palavra grega atheos, que quer dizer “sem Deus”, aparece uma única vez nas Escrituras, quando Paulo descreve a situação dos efésios antes da conversão: “Naquela época vocês estavam […] sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). No Antigo Testamento, o tolo exclama em seu coração de forma concisa e radical: “Deus não existe” (Sl 14.1). Os estudiosos dizem que há ateus existencialistas (Jean Paul Sartre), ateus marxistas (Karl Marx), ateus psicológicos (Sigmund Freud), ateus capitalistas (Ayn Raud) e ateus comportamentais (B. F. Skinner). Embora seja mais fácil identificar e refutar os ateus confessos e militantes, alguns dos quais fazem parte do corpo docente das universidades de maior prestígio, o problema mais sério é o grande número de pessoas que confessam que Deus existe, mas acreditam que devem viver como se ele não existisse. Esse é um problema histórico: “Não há lugar para Deus em nenhum dos seus planos” (Sl 10.4). A tragédia de ontem e de hoje é enunciada na célebre passagem do livro de Jeremias: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água” (Jr 2.13).


Panteísta

Panteísta é aquele que acredita que tudo é Deus e Deus é tudo. Deus e a natureza identificam-se um com o outro. O panteísmo parece ser intermediário entre o ateísmo e o teísmo clássico, mas, na verdade, é uma forma polida de ateísmo. Trata-se de uma mistura imprópria do Criador com a criação, já que Deus é eterno e o mundo é finito. O vocábulo panteísmo foi cunhado pelo escritor irlandês John Toland (1670-1722) há 300 anos, mas encontram-se concepções panteístas nos escritos de Heráclito, o filósofo nascido em Éfeso, na Ásia Menor, 540 anos antes de Cristo. Há vários tipos de panteísmo. Um deles, o panteísmo absoluto, ensina que os seres humanos devem superar sua ignorância e perceber que são deuses. Essa corrente de pensamento faz parte da cosmovisão da maioria dos hinduístas, de muitos budistas e de outras religiões da Nova Era, bem como da ciência cristã e da cientologia.
Politeísta
Politeísta é aquele que acredita na existência de muitos deuses e deusas. Depois que a humanidade perdeu a noção de monoteísmo, Deus mesmo separou Abraão e fez dele um povo que adorava o Senhor de forma exclusiva. Isso era tão importante que o primeiro mandamento do Decálogo proíbe terminantemente o politeísmo: “Não terás outros deuses além de mim” (Êx 20.3). Os profetas tinham a missão precípua de acabar com todas as raízes e todos os vestígios da multiplicidade de deuses. Cerca de três séculos e meio antes de Cristo, o politeísmo grego entrou em declínio graças ao teísmo filosófico de Platão (427-348) e Aristóteles (384-322). O mesmo aconteceu com o politeísmo romano, desta vez graças à ascensão do cristianismo. De acordo com o livro The New Polytheism: Rebirth of the Gods and Goddesses (O novo politeísmo: o renascimento dos deuses e deusas), escrito por David L. Miller e publicado em 1974, o politeísmo está em plena atividade na sociedade contemporânea. A análise de Miller é alarmante: Os deuses passeiam “pelos nossos pensamentos sem nosso controle e até mesmo contra nossa vontade”. Não possuímos os deuses, mas eles nos possuem. Eles “vivem por intermédio de nossas estruturas psíquicas” e “se manifestam sempre nos nossos comportamentos”. Não agarramos os deuses, mas os “deuses nos agarram, e nós atuamos nas suas histórias” (Enciclopédia Apologética, p. 709). É claro que os deuses de hoje não são Astarote, Baal, Camos, Moloque, Zeus etc. Talvez não tenham nomes próprios (exceto o deus do dinheiro, que ainda é chamado de Mamom) para não assustar, mas nomes comuns, como riqueza, poder, tecnologia, ciência etc.
Os que não crêem e os que crêem parcialmente:
Deísta – Aquele que aceita a existência de um Deus destituído de atributos morais e intelectuais, sem fazer uso de qualquer espécie de revelação divina.
Descrente – Aquele que descrê de tudo aquilo que a razão não explica. O mesmo que cético e incrédulo.
Existencialista – Aquele que entende que a existência precede a essência. Na versão de Friedrich Nietzsche, Jean Paul Sartre e Albert Camus, o existencialista rejeita a idéia de um Criador pessoal que existe acima do universo e do qual o universo depende. Nesse caso, o mundo todo é absurdo e sem sentido.
Henoteísta – Aquele que adora um dos muitos deuses do panteão, sem negar a existência dos outros. Também chamado de monólatra.
Humanista – Aquele que se orienta expressamente por uma perspectiva antropocêntrica. O humanista secular é aquele que possui um conjunto de crenças e valores inteiramente não-religiosos, assumindo uma postura anti-teísta e anti-sobrenaturalista.
Iluminista – Aquele que acredita que a verdade deve ser obtida por meio da razão, observação e experiência. Livre-pensador – Aquele que em matéria religiosa pensa livremente, só aceitando as doutrinas que se harmonizam com a sua razão.
Materialista – Aquele que acredita que tudo é matéria ou redutível a ela ou, na linguagem bíblica, aquele que se desvia de Deus, a fonte de água viva, e cava suas próprias cisternas, que não retêm água alguma (Jr 2.13).
Positivista – Aquele que vê a religião como desvio e anomalia, e que se limita ao experimental e às leis ditadas pela experiência, eliminando o sobrenatural.
Racionalista – Aquele que valoriza de maneira única e desproporcional a razão, com exclusão ou menosprezo dos sentidos, dos sentimentos e da revelação.

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