Famílias em conflito



Por: Valmir Nascimento (Jornal Mensageiro da Última Horas)

Trágicos eventos familiares envolvendo pais e filhos marcaram o primeiro quadrimestre de 2006. O Brasil acompanhou estarrecido uma série de acontecimentos chocantes que teve como cerne a violência envolvendo entes de uma mesma família. Episódios como o da mãe que jogou sua filhinha Letícia de apenas dois meses na Lagoa da Pampulha, em Minas Gerais, no início de fevereiro, e o bebê que foi encontrado abandonado no banheiro feminino da estação da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, são, com efeito, suficientes para inicio desse ensaio, o qual, em vista do dias das mães celebrado nesse mês de maio, período propício para reflexão acerca de temas familiares, pretende analisar a crescente ocorrência de eventos dessa natureza em contraste com a Palavra de Deus.

As duas barbáries acima relatadas, que não foram as primeiras a serem noticiadas, e infelizmente não serão as últimas, são apenas a ponta de um iceberg repleto de outras nefastas ocorrências. Cite-se, oportunamente, o caso da recém-nascida que foi encontrada abandonada envolta em uma manta, dentro de uma lixeira, no Parque das Nações, em Indaiatuba (102 km a noroeste de São Paulo). Ainda, a menina recém-nascida encontrada abandonada dentro de uma caixa de sapatos sobre um túmulo do cemitério Parque da Ressurreição em Piracicaba (162 km a noroeste de São Paulo). Ou, então, a noticia da mulher presa acusada de ter atirado a filha de onze meses no leito do rio Piracicaba, debaixo de uma ponte, em João Monlevade, na região central de Minas Gerais.

Saindo dos exemplos de matricídio, crimes cometidos pelas mães, tem-se notícias de crimes perpetrados pelos pais, parricídio, como é o caso do pai W. S., que faleceu depois de tomar chumbinho (agrotóxico usado como raticida), em Belo Horizonte, e que segundo a Polícia Militar, havia enforcado a mulher e dado o mesmo veneno para os filhos, uma menina de doze anos e um menino de dois.

Tem-se, também, informações de filhos que tentaram assassinar os pais, citando-se o caso da garota de 12 anos que foi acusada de ter tentado matar os pais adotivos envenenados, em Jardim Palmeiras, Franca, São Paulo. A estudante de 12 anos, inclusive, é fã de Suzane Von Richthofen, aquela que mandou matar o próprios pais, resultando num crime macabro que assombrou o país.

Perguntas inquietantes

Como visto, estouram pelos quatro cantos do País crimes absurdos envolvendo pais e filhos. Situações em que mães abandonam seus filhos em caixas de sapato ou joga-os aos leitos dos rios. Pais que enforcam filhos, e, filhos que maquinam contra seu genitores. Acontecimentos aviltantes que deixam o público desconcertado. Descalabros que demonstram que verdadeiramente as famílias estão em conflitos internos. Mas não se tratam de simples conflitos envolvendo discussões, debates e choros. Mais do que isso, são verdadeiras guerras travadas entre quatro paredes capazes de acabar com a vida e sonho de muitas pessoas. Batalhas evidenciadas dentro de lares que deixam marcas de terror na vida dos envolvidos.

Nesse sentido, Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez diz que o verdadeiro papel da família deve ser gerar segurança a seus familiares. Devem ser ‘ninhos’ para aconchegar e ‘fortalezas’ para proteger. Devem também ser ‘escolas’ para ensinar e ‘hospitais’ para socorrer, infelizmente, porém, o que vemos atualmente é que uma grande parte dos lares se transformou em verdadeiros ‘espinheiros’ para ferir, ‘zonas de guerra’ para matar, ‘bombas’ para explodir emocionalmente e ‘cemitérios’ para sepultar sonhos e anseios. Tal contexto faz-nos lembrar das palavras de Miquéias 7:6: “os inimigos do homem são os da sua própria casa”.

Diante deste cenário, perguntas inquientantes solapam nossas mentes: O que está acontecendo? O que leva uma mãe a matar o próprio filho ou um filho envenenar os pais? Quem são os culpados por esse caos? O Estado inoperante? A natureza decaída do homem? Ou seria Satanás? Perguntas que nos apertam contra a parede em busca de um resposta. Implicações de natureza sociológica, antropológica e, sobretudo, teológica, retinem em nossos cérebros na busca da razão de ser de tal situação.

Divisão de responsabilidades

Para tentar responder algumas das perquirições acima expostas, não em nível acadêmico obviamente, parte-se do pressuposto de que estamos vivenciando os últimos dias, nas palavras de Cristo os conflitos familiares seriam um dos sinais da sua vinda “Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai, ao filho; filhos haverá que se levantarão contra os progenitores e os matarão”( Mc 13:12). Ainda, no âmbito sociológico as relações familiares, nesse inicio de século XXI, rompeu com tudo o que dantes havia sido registrado pelas linhas históricas da humanidade. A propagação distorcida da liberdade e a implantação cada vez mais acelerada da individualidade e autonomia dos indivíduos provocou no ambiente familiar um egocentrismo sem precedentes, resultando, portanto, no distanciamento afetivo entre os membros de uma família.

Localizar os culpados para essa situação não é uma tarefas das mais fáceis. Dizer que o único responsável é o Estado inoperante, é uma atitude no mínimo “vitimalista”. Apesar de sabermos que o Poder Público não oferece qualquer tipo de projeto/educação/incentivo voltado para a família, e que em razão de sua ineficiência e ineficácia em outras áreas tais como saúde, segurança e emprego, ocasionar graves problemas no seio familiar, não se pode creditar somente a ele o papel de vilão exclusivo no que diz respeito a esse assunto. Também, atribuir – somente – ao Diabo tal mazela, é uma atitude espirituosa. Da mesma forma, conclui-se, culpar a natureza decaída do homem unicamente, é um erro.

Não existem culpados, então? É óbvio que existem. Existe o que assim pode-se chamar de um compartilhamento de responsabilidades, em que cada um daqueles são co-responsáveis por uma parte dos conflitos familiares, cada qual na sua esfera. Com efeito, no plano espiritual, Satanás, que veio para matar, roubar e destruir, usufruindo do contexto de libertinagem dos tempos modernos, encontra lugar em muitas vidas desguarnecidas e desprovidas de Deus, e, com isso, provoca o rompimento e o esfacelamento de milhares de famílias, resultado assim em notícias tais quais foram anteriormente relatadas: mãe que mata filho; filho que mata pai.

O Estado, por outro lado, é culpado na medida em que não promove educação voltada para a educação familiar. Não é tarefa do Poder Público exorcizar demônios para que esses não prejudiquem lares. Porém, compete-lhe dar instrução, educação, segurança, e, sobretudo, promover a igualdade social. Quando ele não consegue atingir esses objetivos, a principal instituição prejudicada é a família.

O papel da igreja

A igreja cristã, em vista desse caos, deve fornecer amparo em ambos os sentidos, espiritual e assistencial, contrapondo-se às investidas de Satanás e à ineficácia do Estado. Deve, por um lado, pregar o evangelho levando Cristo a todos os lares, e, promover o amparo às famílias não cristãs. A Igreja precisa cada vez mais investir em nossos familiares através da oração, da leitura da bíblia, da participação nos cultos da Igreja, na orientação e aconselhamento cristão e principalmente através do testemunho pessoal. E, como disse Ávilla Gimenez “Temos aqui um princípio muito importante da Palavra de Deus que é o exemplo ou o testemunho. Se por um lado uma família desajustada pode influenciar negativamente pessoas, por outro lado um familiar ajustado e temente a Deus, agindo com sabedoria, poderá influenciar positivamente sua família.

A família cristã deve indicar a direção correta para a salvação e também para os relacionamentos que é o próprio Cristo que se revela de maneira clara na sua palavra. A famílias cristãs devem ser fontes de vida e não de morte. Devem ser vasos de bênçãos nas mãos de Deus tanto para nossa como para outras famílias. E que aquilo que não recebemos de nossos familiares seja suprido pela graça divina, capaz de transformar morte em vida através de Jesus Cristo. Afinal, famílias foram criadas para que se tornassem transmissoras das bênçãos divinas. Isso é mostrado logo em Gênesis 12:3b quando diz: “em ti serão benditas todas as famílias da terra.” As bênçãos divinas deveriam ser reconhecidas, aprendidas, exercitadas e transmitidas pela família.

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