Nem só de ignorância viverá o homem



O que acontece quando o cristão pára de pensar?
“A entrega sem reflexão é fanatismo em ação, mas a reflexão sem entrega é a paralisia de toda ação.” John Mackay

Tenho um amigo que é fascinado por novas tecnologias. É encantando pelos produtos da nova geração. Vez ou outra ele aparece com algo diferente. Aparelhos celulares, teclados, filmadoras e DVD’s, é com ele mesmo. Mas nem sempre ele tem uma relação amigável com tais tecnologias. Os atritos às vezes são inevitáveis. Lembro-me de tê-lo visto em diversas ocasiões “discutindo” com o celular, saindo nos “tapas” com a filmadora ou mesmo tendo “arranca-rabos” com o aparelho DVD.

Outro dia fui visitá-lo. Como sabe que sou fascinado por informática, foi logo me mostrando sua mais nova aquisição:

– Veja, comprei um computador. – vangloriou-se ele.
– Qual a configuração? – perguntei interessado.
– É um Pentium 4, com 512 de memória RAM, 60 gigabytes de disco rígido, possui sistema Combo e entradas USB.
– Nooossa! De fato, é uma bela máquina – acrescentei.
– Mas vem cá, pra que serve tudo isso aí que você acabou de descrever? – perguntei.
– Ah, não sei não. Isso quem me disse foi o vendedor. Ainda não aprendi a mexer nessa máquina ainda não!!!

Cérebros subutilizados

Meu amigo é somente um entre milhares de pessoas que não sabem utilizar o seu super-mega-ultra computador. É simplesmente mais um exemplo de todos nós, humanos, que somos detentores de máquinas ultramodernas, mas não sabemos utilizá-las. Possuímos recursos infindáveis, porém, os deixamos de lado.

O mesmo acontece em relação aos nossos cérebros. O melhor de todos os computadores. O equipamento mais eficiente que existe. A máquina mais fascinante a serviço do homem. Mas mesmo assim muitos insistem em ignorá-lo.

Baseado nisso é que se diz que todo ser humano tem cérebro, mas nem todos os utilizam. Todos têm mentes, mas nem todos os colocam para funcionar. Outro dia, durante uma palestra sobre educação cristã, fiz essa mesma argumentação, e acho que alguns dos ouvintes não gostaram muito, pois olharam-me com cara de rinoceronte com azia.

Mas essa é a mais clara verdade. Nós não exploramos ao máximo os recursos das nossas caixolas. Ainda não somos capazes de utilizar todas as possibilidades desse maravilhoso dom que Deus concedeu ao homem, chamado inteligência. No máximo, o que fazemos é subutilizá-la. Empregamo-os na maioria das vezes para desempenharmos tarefas previamente estabelecidas em nosso cotidiano. Para ser mais claro, usamos nossas mentes somente para fazer coisas medíocres, corriqueiras, conservadoras.

Mas até aí o problema não é tão grave. Afinal, como dizem alguns, nem mesmo Albert Einsten, o maior cientista de todos os tempos, foi capaz de utilizar todo o potencial de sua mente; pelo contrário, ele chegou ao patamar de 10% (não me perguntem como chegaram a esse percentual!) da exploração da sua inteligência. Portanto, a efetiva e total execução dos recursos do inteligência é algo utópico, pelo menos para os dias atuais.

Ademais, pensemos no homem como um ser essencialmente gregário; alguém que foi feito para viver em comunidade. Se cada ser humano tivesse 100% de aproveitamento de sua inteligência, tornar-se-iam individualistas e arrogantes em si mesmos. O interessante é que a ausência de conhecimentos específicos em determinada pessoa é superada com o auxilio do próximo. A impossibilidade do uso pleno de nossas mentes é um incentivo ao trabalho em equipe, na medida em que conhecimentos diferentes unem-se para formar um todo perfeito.

Isso, porém, não quer dizer que não possamos desvendar ao máximo as ferramentas do pensamento, que não possamos batalhar pelos recursos da inteligência. Pelo contrário, não só podemos como devemos.

É exatamente aí que identifico o problema. Nós fomos gerados numa cultura que não nos incentivou a pensarmos. O maior exemplo disso é que a nossa formação escolar foi e é basicamente destinada à aquisição de conteúdo em detrimento do pensamento. Nosso aprendizado, na sua grande maioria, tem como meta a capacitação dos alunos com vistas a encontrar respostas ao invés de formular as perguntas. Tal situação, por si só, gera cidadãos de mentes fechadas e de curtos horizontes, pois está baseado no sistema de ensino no estilo bancário, que conforme Paulo Freire, é aquele tipo de ensino em que o professor deposita conteúdo e o aluno saca o conhecimento.

Cristianismo de mente vazia

John Stott, ao analisar a importância da mente na vida do cristão, inicia seu livro argumentando que o cristianismo atual tem estado com a mente vazia. Segundo ele:

“(…) alguns grupos de cristãos pentecostais, muitos dos quais fazem da experiência o principal critério da verdade. Pondo de lado a questão da validade do que buscam e declaram, uma das características mais sérias, de pelo menos alguns neo-pentecostais, é o seu declarado anti-intelectualismo. Um dos lideres desse movimento disse recentemente, a propósito dos católicos pentecostais, que no fundo o que importa não é a doutrina, mas a experiência. Isso eqüivale a por nossa experiência subjetiva acima da verdade de Deus revelada. Outros dizem crer que Deus propositadamente dá às pessoas uma expressão ininteligível a fim de evitar a passagem por suas mentes orgulhosas, que ficam assim humilhadas. Pois bem, Deus certamente humilha o orgulho dos homens, mas não despreza a mente que Ele próprio criou”.

“O espirito de anti-intelectualismo é corrente hoje em dia. No mundo moderno multiplicam-se os pragmatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?” mas sim: “Será que funciona?”

E o pior é que esse estilo de ensino está presente também na educação cristã. Não poucas ocasiões damos ênfase ao conteúdo em detrimento do pensamento. É por isso que encontramos por aí muitas pessoas que têm muito conhecimento mas não sabem como utilizá-los. São verdadeiras enciclopédias ambulantes. Poços de conhecimento. Conhecem a Bíblia de Gênesis a Apocalipse. Sabem de cor e salteado os nomes dos discípulos e das Tribos de Judá. Citam versículos tal qual uma metralhadora. Listam todos os nomes de Deus. Porém, quando alguém “pergunta” a serventia de tudo isso, assim como meu amigo ele responde: – Ah, não sei não. Isso quem me disse foi o professor/pastor. Ainda não aprendi a mexer nessa máquina não!!!

Eis aí, portanto, o ponto nevrálgico do assunto: Não basta ter conhecimento, é preciso colocá-lo em prática. Não basta conhecer a Bíblia, é preciso ter atitude. Como fazer isso? Usando a inteligência. Fazendo valer o pensamento.

Para esclarecer a importância do pensamento, levemos em consideração que o aprendizado é baseado em três ações principais: conhecimento, pensamento e atitude. O conhecimento é aquilo que aprendemos, não somente em sala em aula. Pensamento é a forma de analisar e refletir acerca do conhecimento. Atitude é, em outras palavras, o conhecimento em ação. Cada um desses atos tem a sua parcela de importância, porém, com muita freqüência nós colocamos o conhecimento e a atitude nos lugares mais altos do pódio e relegamos o pensamento ao escanteio. Afinal, não foi Jesus quem disse para obtermos conhecimento? (Errais em não conhecer as Escrituras). E não foi ele também quem nos incentivou a ações? (Perdoai os vossos inimigos). E sobre o pensamento? Cristo não disse nada? Vejamos:

Conhecimento, pensamento e atitude são como peças de um quebra-cabeça. Incompletas sozinhas. Perfeitas unidas. O conhecimento bíblico só é importante se for praticado. A prática só é correta se for refletida. E o pensamento, por sua vez, só será válido se for baseado num conhecimento verdadeiro, direcionado a uma atitude louvável. Aquele que possui somente conhecimento é uma enciclopédia. Aquele que somente pensa é racionalista. Aquele que somente age é um fanático. Mas, aquele que conhece, pensa e age é inteligente.

O pensamento é, portanto, o elo entre o conhecimento e a atitude. É a ponte que promove a ligação entre recursos disponíveis e ações possíveis. Em outras palavras, é a razão de ser do conhecimento bíblico, na medida em que transforma dados em ações concretas. Converte folhas de papel em comportamentos.

Assim, quando os cristãos param de pensar, estamos diante de um sério problema. Sabe qual é? Outras pessoas pensarão por nós. Isso é natural e automático. E uma coisa é certa, o mundo está pensando. Ele não pára de maquinar. Suas reflexões estão a todo vapor. Suas ideologias estão em franco crescimento. Seus pontos de vistas antibíblicos ganham mais adeptos dia após dia. E nós, cristãos evangélicos, o que estamos fazendo? Preparando-nos para a próxima festividade? Ou estamos pensando no evangelho?

Não podemos nos iludir. Quando paramos de pensar, alguém pensa por nós.

Recentemente, por exemplo, surgiu na mídia o assim chamado “homem que explica o mundo” (Revista Veja, 16 de novembro de 2005). Uma referência ao economista americano Steven Levit, autor do livro Freakonomics, que se tornou um fenômeno “desvendando” o lado oculto do cotidiano, com teorias para quase todas as coisas: amor, casamento, aborto, educação, homossexuais, catástrofes, drogas, crime, etc.

Esse indivíduo pensou por ele e por muitos que não quiseram pensar. Assim, seus pontos de vistas pró-aborto foram aceitos por centenas de cidadãos “não-pensantes” que têm preguiça de refletir e medo de analisar.

E o “engraçado” de tudo isso é que ainda ouvimos cristãos dizerem que não podemos investir em estudos e esquecer esse negócio de pensamento e inteligência. Imagino que os restos mortais de São Paulo devem remexer no túmulo quando alguém interpreta II Corintios 3:16 de forma equivocada: “Mas a letra mata e o e o espírito vivifica”, como sendo uma advertência contra os estudo. Meu Deus!!!

Afinal, as Escrituras são claras sobre isso. Primeiro: Devemos amar a Deus no modo C.A.F.É. Que modo é esse: Amar a Deus de todo o nosso Coração, com toda a nossa Alma, de toda a nossa Força e com todo o nosso Entendimento. Eis aí, amar a Deus inclusive com o nosso entendimento. Segundo: “E não vos conformeis com esse mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” Rm. 12:3. E, finalmente, uma coisa é certa: No céu, Deus não dará prêmio pela ignorância, pelo contrário, é mais provável que pergunte: – Por que não usaste mais o teu cérebro a serviço do Reino?

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